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Saúde

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02 de Março de 2026

Do feed ao prato: como o movimento wellness pode impactar a saúde mental

Foto: Freepik

A alimentação consciente ganhou destaque nas redes sociais e passou a ocupar um espaço central na cultura digital. No universo wellness, comer deixou de ser apenas uma prática ligada à saúde para se tornar um marcador de disciplina e sucesso pessoal. Embora esse movimento possa representar mudanças positivas de estilo de vida, especialistas alertam que mensagens rígidas podem desencadear ansiedade, culpa e sofrimento psicológico.

Dietas anti-inflamatórias, jejuns prolongados e rotinas de autocontrole alimentar são apresentados como atalhos para longevidade, produtividade e equilíbrio emocional. Nesse cenário, as escolhas alimentares passam a carregar expectativas de perfeição.

Segundo a neuropsicóloga Aline Reichert, do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental e do Hospital Estadual de Franco da Rocha, unidades da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e gerenciadas pelo CEJAM, existe uma relação entre esse discurso e o aumento da ansiedade.

“Quando a alimentação funcional é vendida como único caminho para saúde, isso ativa a vigilância cognitiva, o hipermonitoramento corporal e o medo de errar. Em vez de promover autocuidado, o foco passa a ser controle”, afirma.

Na prática clínica, esse padrão pode surgir inclusive entre pacientes em acompanhamento nutricional, especialmente quando criam expectativas muito rígidas sobre o próprio desempenho. Essa percepção de fracasso gera tanta tensão que a ansiedade pode ocasionar episódios de compulsão e autossabotagem.

Para a especialista, a alimentação consciente deixa de ser saudável ao perder a flexibilidade. O alerta surge quando a pessoa passa a organizar sua rotina, vida social e autoestima exclusivamente em torno do que come, sente sofrimento ao sair do plano alimentar ou desenvolve medo intenso de determinados alimentos.

“Se o controle excessivo te trava, te causa insônia, te afasta de eventos por não levar sua marmita ou te deixa mais ansiosa do que feliz, precisamos rever essa postura”, afirma.

A linguagem usada nas redes também contribui para esse processo. Termos como “comida limpa” ou “alimentos proibidos” criam uma associação moral com a comida, fazendo com que as pessoas se sintam boas ou ruins dependendo do que consomem.

Esse tipo de discurso pode ainda mascarar transtornos alimentares. A neuropsicóloga pontua que muitos quadros começam com uma busca legítima por saúde, mas evoluem para padrões prejudiciais. “A ortorexia nervosa surge exatamente nesse contexto: uma fixação patológica por comer saudável que, paradoxalmente, gera sofrimento psicológico, prejuízo social e rigidez comportamental”, diz.

Aline explica que não é necessário ter histórico de transtorno alimentar para desenvolver uma relação adoecida com a comida, especialmente entre pessoas com traços de autocobrança excessiva, baixa autoestima ou em momentos de transição emocional.

No consultório, a profissional relata que o foco é trabalhar metas possíveis, flexíveis e a compaixão consigo mesmo diante de recaídas. “Se hoje não deu certo, amanhã tentamos de novo. Não há por que se punir”, diz.

Conforme a neuropsicóloga, as redes sociais também potencializam quadros como a ortorexia ao reforçar padrões irreais, estimular comparações, simplificar questões complexas de saúde e disseminar “receitas milagrosas”.

Por isso, uma das primeiras orientações em casos de transtornos alimentares é reduzir o tempo de exposição às redes. “A realidade pode ser bem diferente do que vemos ali, e não devemos nos medir com a régua dos outros.”

Para Aline, o desafio é preservar a alimentação como espaço de nutrição, prazer e vínculo social, sem transformá-la em instrumento de controle emocional.

Fonte: Comunicação, Marketing e Relacionamento

Nutrição Psicologia Saúde Mental

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